Daigoro – Fiel defensor

01/02/2017

Homenagem e despedida a um amigo fiel e defensor feroz da raça Akita

Para iniciar minha história preciso dizer que como temos minha esposa e eu ascendência nipônica somos diretamente e intimamente ligados a tudo da cultura japonesa inclusive com relação aos ‘Pets’, isto posto vamos ao ocorrido, em 1995 fomos ao Japão para uma visita a família de minha esposa Mie, pois o pai dela que residia lá estava doente e solicitou sua presença para se despedir dos filhos que não moravam com ele.

Após toda a viagem e encontros com a família, decidimos passar uns dias visitando as cidades próximas e conhecendo melhor o povo e sua cultura, já que tanto eu como minha esposa fomos criados no Brasil, terra que amo muito e respeito do fundo do meu coração, onde constitui e criei minha família; passando em frente a uma casa vimos um casal cuidando de 5 filhotes e uma cadela Akita, até hoje não sei o que ocorreu direito meu coração disparou, fiquei com a boca seca e não resisti chamei a senhora e o senhor para conversar sobre os cães.

Fomos convidados a entrar e conhecer o canil deles na parte de traz da casa, o tempo todo em que ficamos lá eu não conseguia tirar os olhos de um filhote vermelho, muito abusado que insistia em puxar a barra da minha calça até rasga-la com seus dentinhos afiados, eu acabava de conhecer ali o meu primeiro akita Daigoro cão de uma linhagem ancestral magnifica e como os senhores poderão ver é o motivo de eu hoje poder contar esta história.

Após muita conversa, ensinamentos e dias de papelada enrolada conseguimos trazer para o Brasil o nosso amado Daigoro em uma caixa de transporte no setor de cargas do avião como bagagem, forma mais barata e menos complexa na época de trazer um animal de outro país, o filhote chegou bem debilitado e estressado pelas 26 horas de viagem do Japão ao Brasil e ainda faltava a viagem de carro até em casa.

Após uma delicada adaptação ao clima, casa, ração e aos nossos filhos, o filhote se mostrou forte e ativo, crescendo rápido e fazendo a alegria da casa junto com as crianças, começamos então a maratona de criar um akita sem conhecer bem a raça, é uma raça de cuidados simples, rústico até e de fácil convivência desde que não se tenha muitos akitas na mesma casa, pois dois machos e duas fêmeas certamente se estranharão na disputa de liderança.

Lemos muito, ligamos muito para o Japão e em outras viagens continuamos a visitar o criador e sua esposa e acabamos decidindo por comprar uma fêmea para fazer companhia para o Daigoro, encontramos aqui no Brasil um bom canil na época com o mesmo cuidado que encontramos no Japão e adquirimos uma fêmea tigrada chamada Mirin Go hoje com 8 para 9 anos.

A vida seguiu plena e feliz por anos e anos até o primeiro fato trágico marcante em nossas vidas, uma noite chegando da faculdade meu filho mais velho Ito ao abrir a garagem foi abordado por um ladrão que queriam levar seu carro, meu filho era faixa prêta de karate e tentou imobilizar o ladrão e não percebeu que tinha um segundo parado alguns metros a frente, ele conseguiu quebrar o braço do primeiro e foi baleado pelo segundo morrendo minutos depois em meus braços, justo nesta noite eu havia deixado Daigoro no quintal de traz a uns 30 metros do portão da casa pois ele havia tentado escapar para a rua na noite anterior, quem sabe os ladrões já estivessem de olho no carro do meu filho, Daigoro e Mirin passaram um mês uivando como loucos todas as noites perto do horário da morte de Ito que era quem mais fazia festa com eles.

A vida seguiu como tem de ser, com suas dificuldades e alegrias, bem menos alegres agora sem nosso amado filho, poucos dias antes dos fatos que me fizeram escrever este relato como homenagem, andando com Daigoro, minha esposa e minha filha na feira livre do bairro, fomos abordados por um rapaz de quem Daigoro logo se encarregou de afastar, foi clara a aversão de nosso cão ao rapaz, me pareceu pessoa comum, bem vestido, olhos claros e voz educada, me fez algumas perguntas de endereços de ruas próximas e se foi, sempre olhando desconfiado para Daigoro.

Era noite de sábado agora em novembro de 2006, Daigoro tem 11 anos, é um cão forte e poderoso, atento a tudo e a todos, silêncioso como a noite, fomos dormir por volta das 23 horas como de costume, ao colocar Daigoro para frente da casa notei que ele estava mais alerta do que o normal, levemente impaciente, ficou duramente encostado a minha perna olhando a rua escura a nossa frente como se fosse ficar na minha frente para me defender de algo, como olhei, olhei e nada vi, dei um tapinha nas costas dele e entrei em casa.

Madrugada alta por volta das 4 da manhã, minha esposa dormia um sono pesado devido ao calmante que sempre tomava para dormir, como estava inquieto tomei meio comprimido naquela noite e estava com a cabeça zonza e olhos embaçados, ouço rosnados ferozes vindos do quintal de traz onde esta Mirin, Daigoro esta quieto, ouvi um barulho de algo quebrando, logo outro som e outro, latidos, rosnados, tentei levantar da cama, mas o corpo não obedecia com rapidez devido ao comprimido tomado mais cedo, um grito de homem, palavrões, rosnados, barulho na garagem e corredor lateral, acho que ouvi outro grito abafado agora, entro em pânico ao ouvir três tiros seguidos, rosnados, Mirin late como louca, minha filha acorda e corre para o meu quarto e grita meu nome deseperada sem saber o que fazer.

Decidimos ficar no quarto esperando mais um pouco pois não temos armas em casa e com certeza eram ladrões que tentavam entrar, neste momento entra pela porta do nosso quarto Daigoro lavado de sangue, mancando muito e gemendo baixinho, minha filha começou a gritar, conseguimos chamar 190 apesar de já ouvirmos sirenes ao longe, com dificuldade descemos e nos deparamos com a cena mais horrivel que um ser humano pode imaginar na santidade de seu lar, nosso cão Daigoro havia impedido que o ladrão entrasse pela porta lateral do corredor que estava aberta já com os vidros quebrados, havia um revolver preto no chão em uma poça enorme de sangue, e tudo estava revirado.

Os policiais foram muito educados e pacientes e nos orienteram, o encarregado disse que o ladrão devia estar ferido e iam fazer buscas nos hospitais e pronto socorros próximos para tentar acha-lo.Não percebemos que Daigoro não havia decido conosco e ao voltar para o quarto com o policial, encontramos nosso amado Daigoro deitado em uma poça de sangue no carpete do meu quarto já sem vida, ele havia levado dois dos três tiros que eu escutara antes, um deles segundo o policial o mais letal foi no tórax o outro na pata traseira direita.Mirin estava bem, latia e uivava mas estava saudavel.

No dia seguinte entre limpeza, lágrimas e preprativos para enterrar Daigoro em um cemitério de pets no ABC de São Paulo, fomos notificados que o ladrão havia sido encontrado em um P.S. na periferia muito machucado pelas mordidas de nosso cão Daigoro, ao vê-lo na delegacia, quase desmaiei ao ver o mesmo rapaz que nos abordara na feira na semana anterior, ele estava muito, muito machucado mesmo e ao me ver me disse que os policiais contaram a ele que o nosso cão havia morrido e que ele sentia muito pois ele só queria roubar a casa e nada mais.

O delegado me relatou ser mentira pois ele já tinha fama de roubar residências e cometer estupros contra as moradoras e inclusive ter já dois homicidios durante roubos a residências na nossa região.Hoje tocamos a vida adiante, todos em casa sentem muito a falta de nosso guardião Daigoro, decidimos como não temos filhos de Mirin e Daigoro não ter outro akita, estamos de mudança para o inteiror do estado para um sitio nosso pois São Paulo esta muito perigosa hoje, lá continuaremos nossa vida lembrando sempre de um akita que deu sua vida para salvar a vida de minha família nosso Daigoro.

Estou escrevendo e lhes enviando este relato por perceber que este site é sério e tem uma intenção nobre e porisso os senhores merecem nosso respeito, é muito importante que as pessoas que não conhecem a raça, percebam que o akita não é o comércio que se faz hoje em dia dele, esta raça é uma raça especial para pessoas especiais, é um cão que se pode dizer quase humano em sua sensibilidade.

Cordialmente

Seiji Muramoto Nakamura – Saudoso!

O Clube do Akita recebeu a história do senhor Seiji por carta com a permissão de publica-la, esta sessão tem a intenção de mostrar a ligação de amor, amizade e companheirismo que esta raça nos dedica sem nada cobrar em troca a não ser nosso carinho e respeito .Viva os Akitas!

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