Lutas e Dificuldades

A Imigração Japonesa – Lutas e Dificuldades

As lutas e dificuldades

Não era fácil adaptar-se ao novo país, diferenças culturais, de idioma, alimentares, ideológicas, o trabalho na maioria das vezes era árduo e até mesmo cruel com os pioneiros, as regras a serem seguidas eram rígidas e duras. Fora o fato de que nenhum dos imigrantes que aqui chegaram veio com a intenção de se fixar definitivamente no Brasil, a idéia senão de todos, pelo menos da grande maioria era trabalhar, juntar dinheiro e voltar ao seu país de origem em poucos anos, com uma situação financeira melhor e esperando que sua patria mãe já estivesse estabilizada.

Geralmente eram empregados como “formadores de cafezais”, isto é, mediante contrato com o dono da terra, a família japonesa se dispunha a constituir a lavoura, e dela cuidar até que entrasse em produção satisfatória.

Enquanto isso, eram suas as culturas intercaladas de feijão, batata, milho e algodão. A remuneração era de 2 mil réis por dia para cada mil pés de café tratados, acrescida de um pagamento proporcional à quantia de café colhida.

Para cumprir o contrato de imigração, as famílias – muitas formadas artificialmente – deveriam ter de três a dez pessoas, maiores de 12 anos e em condições de trabalhar. Solteiros, só os que tivessem profissão definida, como pedreiro, carpinteiro ou ferreiro.

Mas nem sempre era possível juntar algum dinheiro dessa maneira, por isso muitos japoneses apressavam-se em ver-se livres do contrato obrigatório de um ano, para trabalhar na construção de estradas de ferro ou em outros serviços braçais. Quando possível, arrendavam terras a baixo custo, para plantar seus próprios cafezais. Alguns optaram pelo arroz, cultura que já conheciam no Japão e que possibilitava bons lucros, devido à escassez durante a Primeira Guerra Mundial.

E foi principalmente o cultivo do arroz – mas também o da banana – que fixou os primeiros japoneses no litoral paulista. Para dedicar-se a essas atividades, muitos deixaram os empregos na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e na Companhia Docas de Santos (em 1918, havia na Docas turmas constituídas exclusivamente por japoneses).

Apesar de todas essas dificuldades, apesar do calor e da malária que assolava a região, os japoneses foram ficando, as famílias foram crescendo. Compraram as terras arrendadas, estenderam as suas plantações, levaram escolas para seus filhos e acabaram fincando raízes, como o arroz, a batata, o algodão. E nunca mais se desfez a corrente de interesses solidários entre os dois países, composta, fundamentalmente, pelas coisas da agricultura.

Hoje, os japoneses remanescentes das várias levas de imigrantes (isseis), e seus descendentes (nisseis, da segunda geração; sanseis, da terceira; e yonseis, da quarta), fazem muito mais do que transformar matas virgens em terras produtivas, ou ir para a roça com um machado nas costas e o coração cheio de sonhos. Eles são responsáveis por gerações de agricultores com lugar definitivamente marcado na economia do País, mas também por uma novíssima geração de engenheiros, médicos, matemáticos, técnicos, intelectuais e até políticos.

Mas a tradição agrícola persiste. Por todo o litoral de São Paulo, quem prova uma enorme goiaba, uma fruta das mais doces, ou compra uma rosa meio diferente, logo conclui que é ou foi cultivada por japoneses ou seus decendentes. Pode até acrescentar que as flores e as frutas perderam o seu cheiro original, ou que a goiaba não tem mais o mesmo sabor, mas não pode deixar de admirar esses estrangeiros que vieram do outro lado do mundo para monopolizar o setor de abastecimento com seus legumes, verduras, frutas e cereais.

Transcorridos 30 anos de imigração, quando muitos japoneses já alcançaram estabilidade financeira e familiar, tanto no setor agrícola como no comercial e no industrial, o Japão entrou na Guerra do Pacífico. O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, e os aliados declararam guerra ao Japão, de modo que os imigrantes ficaram na posição de adversários. E em nome da segurança nacional, os súditos do Eixo tiveram que se retirar de uma faixa de 50 quilômetros do Litoral. Japoneses e alemães foram removidos em 24 horas para São Paulo e depois distribuídos por várias cidades do Interior.

Totalmente colhidos de surpresa, numerosos japoneses trataram de se desfazer de seus bens paqra que não fossem confiscados ou roubados.

Quase todos proprietários de chácaras, eles puseram à venda quase tudo quanto possuíam. Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regatear. Um deles, para desfazer-se de sua chácara, em Santa Maria, vendeu três porcos, uma carroça e um muar pela quantia de mil cruzeiros. As galinhas eram vendidas a dois ou três cruzeiros.

Muitos foram acompanhados das famílias, mas outros tantos deixavam filhos, sobrinhos e netos brasileiros reunidos sob a responsabilidade dos mais velhos, a fim de completarem o ano escolar e também para tomar conta das propriedades que ficavam abandonadas. A polícia publicava nos jornais da época, um apelo ao povo de Santos e região, para que tomasse para si a responsabilidade de guardar essas propriedades, tornando-se cada vizinho um vigilante atento, que deveria dar notícia urgente de qualquer irregularidade. Nem sempre isso aconteceu.

O término da guerra não solucionou totalmente esse problema, pois os japoneses, durante muito tempo, ainda enfrentaram, em certos ambientes, um clima de desconfiança. A própria colônia viu-se dividida em duas facções, uma conformada com a derrota nipônica, e outra inconformada.

Quando finalmente os ânimos se acalmaram e os japoneses puderam retornar para suas cidades e suas famílias, perceberam que seus filhos haviam crescido conforme os padrões da nova terra, apesar desse estado de coisas, e que se haviam adaptado completamente ao Brasil, sua terra natal.

Assim, de 1950 em diante, a colônia japonesa passou a tomar uma outra atitude nas questões de adaptação, e começou a empenhar-se na fixação de suas bases em diversos setores ocupacionais, culturais, políticos e econômicos, concorrendo para a evolução da sociedade brasileira.

Enquanto isso, começaram a chegar os primeiros imigrantes do pós-guerra, trazendo uma nova mentalidade e uma nova força de trabalho, abrindo uma nova fase na história japonesa no Brasil. Nesse período, as empresas transferidas do Japão para cá já começavam a participar progressivamente da economia nacional.

Clube do Akita – O Guardião Japonês – Site: http://www.clubedoakita.com.br